O Luto da Infância na Entrada da Adolescência
- transforma escola
- 28 de mai.
- 3 min de leitura

Entrada da escola
.
O luto da infância: quando o seu filho deixa de ser criança
A transição da infância para a adolescência é frequentemente rotulada pelos adultos como uma fase de rebeldia, isolamento ou crises de humor. No entanto, a psicologia e a pedagogia nos convidam a olhar para esse período por uma perspectiva muito mais profunda: como um verdadeiro processo de luto.
O "luto da infância" é o período em que o indivíduo precisa se despedir da sua versão infantil para que a sua identidade adolescente possa nascer. Não se trata de uma simples mudança de comportamento, mas sim da perda de um mundo conhecido, seguro e confortável.
A renomada psicanalista argentina Arminda Aberastury, pioneira no estudo do desenvolvimento infantojuvenil, explica que a adolescência é fundamentalmente marcada por uma tripla perda. De acordo com a autora, para construir a sua própria maturidade, o jovem precisa obrigatoriamente atravessar três lutos essenciais:
1. O luto pelo corpo infantil
O corpo muda de forma rápida e sem pedir licença. O jovem perde as formas familiares com as quais conviveu desde pequeno e ganha novas proporções, voz diferente e hormônios. Como aponta Aberastury, o adolescente assiste passivamente às mudanças do seu próprio corpo, sentindo-se muitas vezes como um "estranho no próprio ninho". Essa perda gera insegurança e uma necessidade biológica de recolhimento no quarto — o corpo precisa de tempo e privacidade para ser assimilado.

2. O luto pela identidade infantil
Ser criança traz privilégios silenciosos: a proteção integral dos adultos, a ausência de grandes responsabilidades práticas, o direito ao brincar livre e o olhar de aprovação quase automático da família. Deixar esse lugar significa abrir mão desses confortos e começar a lidar com as cobranças acadêmicas, as escolhas de grupo e a pressão pelo futuro. O jovem sofre por deixar de ser o "pequenino" protegido da casa.
3. O luto pelos pais da infância
Aqueles pais idealizados da primeira infância — que pareciam super-heróis invencíveis, sabiam todas as respostas e representavam um porto seguro inquestionável — "morrem" para dar lugar a pais reais. O pré-adolescente começa a enxergar que seus pais falham, cansam, têm dúvidas e colocam limites. Esse choque faz com que o jovem passe a contestar as regras da casa. De acordo com a literatura psicológica, ele não faz isso por falta de respeito, mas sim pela necessidade vital de se diferenciar dos pais para descobrir quem ele é individualmente.
O papel do acolhimento em casa e na escola
Muitas vezes, os próprios pais entram em luto sem perceber. É desafiador ver que aquele filho que pedia colo e contava tudo, agora prefere o silêncio ou a companhia exclusiva dos amigos. A reação mais comum de famílias e de escolas com modelos muito rígidos é tentar prender o jovem na infância ou punir o seu distanciamento.
Compreender o luto da infância através dos olhos de especialistas como Arminda Aberastury nos dá a paciência necessária para entender que o silêncio e as oscilações são ferramentas de reconstrução interna. O ecossistema escolar e o ambiente familiar precisam dar espaço para que a infância vá embora com dignidade, garantindo que o afeto, a escuta ativa e a segurança continuem presentes. É trocando a postura de controle pelo diálogo horizontal e acolhedor que ajudamos o adolescente a atravessar essa ponte de forma saudável e conectada com o futuro.

Sobre a Autora
Ana Paula Nogueira Diretora, idealizadora e Gestora Educacional da Transforma Escola. Especialista em desenvolvimento juvenil, práticas pedagógicas humanizadas, educação antirracista e acolhimento socioemocional na transição para a adolescência.





Comentários